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14.7.13

Deste modo


Deste modo ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.


Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.


E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

O Guardador de Rebanhos  . Alberto Caeiro . 10-05-1914

1.7.13

Não saibas

Não saibas: imagina…
Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões…
Um a-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições…

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia…

Miguel Torga, in "Diário".
 

24.6.13

Ideias.

Nem sempre surgem quando queremos, quando precisamos, quando são necessárias. Porque não caem do céu, não se apanham nas árvores, não nascem da terra. São fruto de trabalho, de atenção, de sensibilidades, de vivências e experiências. São encontros, respostas, desafios, emoções, ação. Inseparáveis da imaginação, da criatividade, da originalidade elas fazem avançar o mundo, provocam as capacidades humanas e alimentam o pensamento divergente. Falamos das boas ideias, claro! 
Das que nos fazem vibrar e sorrir.

22.6.13

Um conselho...



 

Fez ontem um ano que publicámos aqui este vídeo. Por já estarmos no Verão, por ser tão inspirador, por gostarmos tanto da mensagem que ele passa... está aqui de novo para nos relembrar que a nossa atitude determina (muito) a qualidade e o significado dos nossos dias, da nossa vida. Um bom fim de semana.

18.6.13

Simples



"A vida é uma aprendizagem diária. Afasto-me do caos e sigo um simples pensamento:
Quanto mais simples, melhor!"

José Saramago

16.6.13

Sobretudo


O que há em mim é sobretudo cansaço
 
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, 

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...


E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, 

Cansaço...

Álvaro de Campos

11.6.13

Zona de conforto.




Esta mensagem lembrou-me a mensagem que uma colega de profissão transmitiu a alguém que insistia em ouvir-se a si próprio: "Se quiseres aprender alguma coisa tens de ouvir o outro... o que ele possa vir a dizer talvez tu não saibas, ao contrário do que falas que já sabes de cor e salteado." 

Sair da nossa zona de conforto é o confronto com novas experiências, novas aprendizagens, novas sensações e quem sabe agradáveis  descobertas, novos rumos, novas maneiras de viver e novas formas de nos vermos e sentirmos. Sair da zona de conforto requer uma vontade muito grande, um empenho ainda maior e será sempre mais fácil para quem tiver a certeza que o que venha a viver, a experienciar será sempre uma mais valia para si, que acrescentará algo, que o enriquecerá, que o completará... que o descobrirá. E é este o maior fascínio, a magia que acontece para além do círculo pequenino... a revelação do que não conhecíamos até então.

10.6.13

Duas vozes.


Duas vozes que dão voz a muitas vozes. 
No Dia de Portugal só podemos aqui deixar o desejo profundo que este país fantástico recupere deste estar moribundo e que as pessoas certas para liderarem esta  operação de resgate apareçam o quanto antes. 
Nós ansiamos por este momento. Nós estamos prontos. Nós amamos este país.  



22.5.13

Percepção... ou não.


Ao longo da nossa vida a percepção que temos de determinadas coisas altera-se tão discretamente quanto o crescimento de um filho.

A percepção das distâncias, das dimensões, do que é importante, a percepção do tempo, a percepção do outro, entre tantas outras dimensões que observamos, sentimos e com as quais interagimos. Talvez seja a nossa experiência de vida a responsável por estas alterações. Com as vivências os referenciais mudam e o que era longe passa a ser perto, o que era enorme passa a ser mediano, o que era espantoso passa a ser comum, o que era simples passa a complexo e por aí adiante…
Enquanto criança, não existiram em casa dos meus pais (tal como em tantos outros lares na década 70) máquinas de lavar loiça e roupa, sempre houve um quintal onde se criaram os animais que nos alimentaram e uma horta onde se cultivaram os legumes caraterísticos de cada estação do ano. Nunca houve carro e os percursos diários casa-escola, casa-trabalho eram feitos a pé, quatro vezes ao dia porque almoçámos sempre em casa, quer fizesse chuva ou sol. Os meus pais sempre trabalharam oito horas diárias para patrões e nunca tiveram ajuda quer nas lides da casa, quer nas lides da terra. Para além destas afazeres haviam ainda os momentos em que aliavam o lazer à necessidade... a pesca e a caça para o meu pai... o tricot, o crochet e a costura para a minha mãe.
E hoje passados trinta anos não consigo perceber como é que em tão pouco tempo, o tempo alterou tanto. 
Temos máquinas que nos ajudam (imenso) e nos desocupam durante largas horas. Temos carros que nos minimizam tempo e esforço nos percursos a fazer. Não temos animais nem hortas que precisemos de cuidar e tratar (agora temos uma hortinha).
E não temos tempo para fazer grande parte das coisas que gostaríamos e que tanto prazer nos daría. 

Não sería lógico "ganharmos tempo" com o uso de todos estes equipamentos?
Ou será que não é uma questão de tempo?
 Será só alteração de percepção?
(Como gostaríamos muito de ouvir as opiniões de quem por aqui passa temos os comentários abertos. Obrigada.)

2.5.13

Green Day


Há quem lhe atribua as competências de um bom psicólogo, a identifique como templo de oração ou a reconheça como um eficaz ginásio. Uma horta é mesmo um pouquinho de tudo isto e muito mais. Quem planta ou semeia, trata, cuida, guarda, observa, contempla, ... dá um valor ao tempo diferente de quem não tem ou nunca teve uma horta. A espera pela criação da natureza é vivida com uma ansiedade calma. As transformações que se observam ao longo do tempo são, para os novatos nestas andanças (ou será para todos?),  motivo de admiração, de espanto pela perfeição com que tudo acontece.  A preocupação com as condições ideais para que o crescimento se dê são uma constante. As dúvidas são motivo de aproximações intergeracionais que enriquecem e valorizam as pessoas e os conhecimentos adquiridos ao longo de décadasE estreita-se uma relação que nos aproxima do que é verdadeiro, natural, que nos traz paz e alimenta.

Já estamos em preparativos para o "Red Day"...